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Domingo, 02 de Agosto 2026
Saúde

Vivemos em uma sociedade com noções muito alquimista do que é ciência, infelizmente

Em primeiro lugar, muito ao contrário do que pensam, uma boa higiene não inclui a ideia de esterilidade.

Rede Cidadania Digital
Por Rede Cidadania Digital
Vivemos em uma sociedade com noções muito alquimista do que é ciência, infelizmente
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Ao longo da minha vida acadêmica, me deparei algumas vezes com um certo tipo de
cobrança, vindas das pessoas ao meu redor. Cobrança esta que mora na capacidade de
transformar o cientificamente correto em algo simples de explicar e depois em algo
extraordinário de se viver. Em outras palavras, as pessoas esperam que eu valide sua ideia
alquimista do que é ciência. Pensando nisso, resolvi reunir uma pequena lista de respostas,
para ideias equivocadas a respeito do cientificamente correto.
Certa vez uma amiga querida, resfriada me consultou sobre quanto de sal e açúcar colocar
para fazer um soro caseiro. Prontamente e sem a menor culpa profissional eu respondi que
"não importa, contanto que fossem algumas colheres de sal e açúcar, para litros de água"
(LITROS no plural). Ela me encarou como se eu fosse louca, irresponsável e me fez vários
julgamentos, das quais na época não me importei. Mas hoje reflito que, está é
provavelmente a dúvida de muitas pessoas. Nota, para o fato de que esta amiga tem alto
grau de formação acadêmica, ou seja, ela sabe se informar. No entanto, teve dúvidas
quanto a algo tão banal como soro um caseiro.
A resposta neste caso seria que, para uma pessoa saudável passar mal com excesso de
sal e açúcar, seriam necessários consumir quilos de sal e açúcar. O ingrediente mais
importante do soro é e sempre será a água. PORTANTO BEBAM ÁGUA!

Da mesma forma, sobre a relação da higiene e a ingênua ideia que os banhos, a escovação
dos dentes, a limpeza da casa e das louças, trazem esterilidade. É aí que como a bióloga
que sou, tenho que lembrá-los, caros leitores, que o maior reino de seres vivos é o reino
monera (as bactérias). E estas, em grande maioria, sequer interagem com o ser humano.
Das que interagem, chamamos na biologia de microbiota endógena. A microbiota endógena
está conosco desde nosso nascimento, nos acompanha por toda a vida e são tão nossas
como qualquer outra célula do nosso corpo. Algumas são até benéficas, como as da
digestão.
Por tanto, o que garante a higiene é apenas a constância. Constância esta, necessária
para manter sob controle as populações de bactérias que carregamos naturalmente
conosco. Constância de banhos para manter sob controle a população Staphylococcus
aureus (estafilococos ) natural sob a pele, para que não provoque lesões e infecções.
Constância de escovação dos dentes para que a população de Streptococcus mutans não
cause caries. Constância de limpeza da casa, principalmente cozinhas e banheiro, manter a
casa bem arejada.
Também em relação à qualidade e pureza do que consumimos. Recentemente houve um
caso aqui em MG, de um animal que caiu na rede de tratamento de água. E houve uma
grande comoção a respeito da qualidade da água que chegaria nas casas. E claro, a
infraestrutura do encanamento e a segurança para que não caiam resíduos e animais na
rede de água é importante. Mas, a principal fonte de informação sobre a qualidade da água
que consumimos é e sempre serão os hospitais. Cólera, leptospirose, giardíase e febre
tifóide são exemplos de doenças das quais quase não ouvimos mais falar e que são
transmitidas por águas contaminadas. E a ausência dessas doenças nos boletins
hospitalares, é que nos dizem sobre a boa qualidade da água que consumimos.
Obviamente, a água para ser considerada tratada e segura, precisa ser potabilizada para
estar em condições de consumo.
E a ideia de aditivos químicos me lembra também o grande receio que as pessoas têm de
produtos transgênicos. O que é mais um equívoco, na verdade, um aglomerado de
equívocos. Dentre os mais interessantes, tem as pessoas que confundem transgênico
(organismo geneticamente modificado - ex: vacinas, soja, etc.) com transgênero (mudança
de sexo biológico). Tem também os que confundem transgênicos, com mutagênicos (os
causadores de mutações, ex: químicos agrícolas). Ainda tem aqueles com uma ideia
midiática e fantasiosa do que são transgênicos, em casos mais recentes inclusive,
houveram aqueles que acreditaram em vacinas com imãs, vacinas que transforma em
jacaré, etc.
Os transgênicos são uma categoria especial de Organismos Geneticamente Modificados -
OGM, produzidos a partir de uma técnica chamada Proteína Recombinante, que usa a parte

mais “maleável” do DNA de algumas espécies de bactérias, o DNA Plasmidial, para a
inserção de genes de interesse médico, científico, farmacológico, pecuário e agrícola. O
domínio dessa técnica, são um grande avanço científico e orgulho da ciência brasileira, que
proporcionou entre outras coisas, que a soja chinesa, fosse adaptada para plantio em solo e
clima brasileiro. Além de outras tecnologias que permitiram o melhoramento genético de
commodities resistentes a pragas, fungos e a herbicidas.
E é na adição de herbicidas e nos demais combatentes agrícolas que mora o verdadeiro
perigo, não nos transgênicos. Pois, alimentos transgênicos são mais resistentes a
produtos químicos, mas as pessoas que consomem estes alimentos não são
resistentes a químicos agrícolas ou aos nitritos dos embutidos. Por certo, o excesso
de produtos químicos nos alimentos, nos tornaria mais propensos ao desenvolvimento de
doenças mutagênicas, como autorização do aumento das concentrações de nitritos e
nitratos nos alimentos embutidos. E como a ciência também é política, percebo ser
fundamental esclarecer que a transgenia é benéfica sim. Porém, “passar a boiada” para
aumentar a quantidade de combatentes agrícolas nos alimentos ou químicos que
aumentam o tempo de vida e de prateleira dos alimentos, não.
Bom, no final das contas, todos podem ficar à mercê de desinformação, por diversos
motivos. Como bióloga o que considero fundamental que todos entendam de uma vez por
todas e que evitaria pseudociência é que, teorias, observações clínicas e dados, não são
informação. INFORMAÇÃO É DADO TRABALHADO. E aqui é necessário dar alguns
passos atrás (lá no ensino fundamental) para lembrar que, numa escala de método
científico (Observação, pergunta, hipótese, método, experimento, obtenção de dados,
conclusão, publicação, validação e informação) a dicas médicas não validadas
cientificamente, blogs, testes caseiros e outros, que não passaram pelo crivo acadêmico
para enfim se tornar informação, são apenas histeria coletiva.
Por: Isabela Marques Naziazeno, bióloga analista de gestão de qualidade e ativista política;
Instagram: @isabelamarqueszz 
Tiktok: isabelamarqueszzz

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