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Sexta-feira, 02 de Outubro 2026
Justiça

QUANDO A ARMADILHA É DEFENDER O SISTEMA: A ESQUERDA PRECISA MUDAR O TERRENO DA DISPUTA

o Brasil assiste a uma crise que ultrapassa os limites de uma disputa entre ministros do Supremo Tribunal Federal.

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Por Rede Cidadania Digital
QUANDO A ARMADILHA É DEFENDER O SISTEMA: A ESQUERDA PRECISA MUDAR O TERRENO DA DISPUTA
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A crise envolvendo André Mendonça, Alexandre de Moraes e o Banco Master ocorre a um mês das eleições e pode alimentar a narrativa antissistema da ultradireita. A resposta progressista não deveria ser proteger autoridades, mas defender investigação para todos, devido processo, transparência e uma agenda que devolva ao povo o centro da política.

A um mês das eleições, o Brasil assiste a uma crise que ultrapassa os limites de uma disputa entre ministros do Supremo Tribunal Federal. O conflito envolvendo André Mendonça, Alexandre de Moraes e as investigações relacionadas ao Banco Master tem potencial para reorganizar parte da narrativa eleitoral e produzir um resultado especialmente perigoso: permitir que a ultradireita se apresente novamente como força de contestação ao sistema.

A crise é concreta. Existem acusações, questionamentos institucionais, investigações e controvérsias envolvendo a condução de procedimentos relacionados ao Banco Master e às relações de seus personagens com autoridades públicas.

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É fundamental, entretanto, estabelecer uma fronteira que deveria valer para qualquer pessoa e qualquer campo político:

fato não é indício; indício não é acusação; acusação não é prova; e investigação não é condenação.

Essa distinção é essencial.

Justamente em momentos de enorme tensão política, o campo progressista precisa fazer aquilo que cobra de seus adversários: separar fato, indício, acusação e prova.


A PRIMEIRA ARMADILHA: TRANSFORMAR A ELEIÇÃO EM “MENDONÇA CONTRA MORAES”

Esse é o terreno que precisa ser recusado.

A crise não pode ser reduzida a uma escolha entre André Mendonça e Alexandre de Moraes.

Muito menos pode o campo progressista assumir automaticamente a defesa de qualquer ministro do Supremo simplesmente porque essa autoridade entrou em confronto com o bolsonarismo.

A democracia não exige ministros de estimação.

Exige instituições submetidas à Constituição.

Se existem suspeitas envolvendo Mendonça, investigue-se Mendonça.

Se existem suspeitas envolvendo Moraes, investigue-se Moraes.

Se aparecerem políticos de esquerda, direita ou centro, investiguem-se os políticos.

Se empresários, banqueiros, lobistas ou intermediários utilizaram relações privilegiadas para obter benefícios do Estado, investiguem-se também essas relações.

O princípio precisa sobreviver ao nome do investigado.

A posição progressista deveria caber numa frase:

“Não queremos escolher quem deve ser protegido. Queremos saber se a mesma lei vale para todos.”

Esse é o primeiro movimento para escapar da cilada.


O PROBLEMA MAIOR É A CAPTURA DO ESTADO

Há algo ainda mais importante escondido atrás do conflito institucional.

A questão fundamental não é somente saber quem conversou com quem.

Precisamos perguntar:

como o grande poder econômico constrói acesso privilegiado às estruturas do Estado brasileiro?

Quem abre essas portas?

Como empresários e agentes econômicos conseguem estabelecer relações com autoridades políticas, parlamentares, integrantes do Judiciário e outros centros decisórios?

Onde termina a relação institucional legítima e começa o conflito de interesses?

Onde termina o lobby legítimo e começa o tráfico de influência?

Quem fiscaliza essas relações?

Quem fiscaliza os fiscalizadores?

E, sobretudo:

por que o cidadão comum encontra tantas portas fechadas enquanto determinados grupos econômicos parecem encontrar tantos corredores abertos?

Essa é a discussão que precisa sair da superfície do conflito entre personagens e alcançar as relações mais profundas entre poder econômico, instituições e política.

É aqui que a esquerda pode recuperar uma bandeira que nunca deveria ter abandonado:

a democratização do poder.


O FALSO ANTISSISTEMA

A ultradireita compreendeu há muito tempo uma fragilidade da política contemporânea.

Milhões de pessoas estão insatisfeitas com as instituições.

Desconfiam dos partidos.

Desconfiam do Congresso.

Desconfiam da Justiça.

Desconfiam da imprensa.

Desconfiam das elites econômicas.

Parte dessa desconfiança possui causas concretas.

O erro progressista seria responder a essa sociedade apenas dizendo:

“Confie nas instituições.”

Não basta.

Instituições democráticas precisam ser defendidas contra ataques autoritários. Mas defendê-las não significa torná-las imunes à crítica, à transparência ou à responsabilização.

Quando a esquerda aparece apenas como defensora da ordem institucional existente, deixa um espaço político gigantesco para que a extrema direita ocupe fraudulentamente o lugar da rebeldia.

É assim que nasce um dos maiores paradoxos políticos do nosso tempo:

forças profundamente comprometidas com privilégios econômicos conseguem apresentar-se como inimigas das elites.

O progressismo precisa desmontar essa operação.

Não oferecendo um antissistema autoritário.

Mas construindo um antissistema democrático.

Contra privilégios.

Contra captura do Estado.

Contra conflitos de interesse.

Contra justiça seletiva.

Contra poder econômico sem controle.

Contra qualquer autoridade que imagine estar acima da lei.


A SEGUNDA ARMADILHA: NEGAR OS PROBLEMAS PORQUE ELES SÃO ELEITORALMENTE INCONVENIENTES

Também seria um erro tentar responder às revelações simplesmente negando qualquer problema ou atribuindo automaticamente todas as denúncias a conspirações políticas.

O campo progressista precisa desenvolver maturidade suficiente para dizer:

se houver problema, investigue-se.

Essa postura aparentemente defensiva pode tornar-se uma enorme vantagem política.

Porque retira da ultradireita o monopólio artificial da indignação.

A resposta não deveria ser:

“Nosso lado não fez nada.”

Deveria ser:

“Nós não queremos impunidade para o nosso lado. Queremos que não exista lado quando se trata de cumprir a lei.”

Essa é uma diferença profunda.


A TERCEIRA ARMADILHA: DEIXAR O ESCÂNDALO SEQUESTRAR A ELEIÇÃO

Existe ainda um perigo maior.

O Brasil pode passar as últimas semanas da campanha discutindo ministros, mensagens, celulares, vazamentos, despachos e guerras internas das instituições enquanto milhões de brasileiros continuam discutindo outra coisa dentro de casa:

o preço da comida.

O salário.

A jornada de trabalho.

O aluguel.

Os juros.

A saúde.

A escola dos filhos.

O transporte.

A aposentadoria.

A segurança.

O tempo que sobra para viver.

É precisamente aí que a política progressista precisa retornar.

A discussão institucional é necessária.

Mas ela não pode sequestrar a discussão social.


A RESPOSTA WIDTECH: MUDAR O CAMPO DA BATALHA

A estratégia pode ser sintetizada em seis movimentos:

NÃO NEGUE → NÃO PROTEJA → AMPLIE → COMPARE → MATERIALIZE → MOBILIZE

NÃO NEGUE.

Onde houver fato comprovado, reconheça-o.

Onde houver suspeita, trate-a como suspeita.

Onde houver acusação, não a transforme antecipadamente em condenação.

NÃO PROTEJA.

Nenhuma autoridade precisa tornar-se patrimônio eleitoral da esquerda.

AMPLIE.

Em vez de discutir apenas personagens, discuta as relações entre dinheiro, influência e Estado.

COMPARE.

Pergunte se os mesmos critérios de transparência, investigação e responsabilização estão sendo exigidos de todos.

MATERIALIZE.

Reconecte a disputa institucional à vida concreta:

salário;

jornada;

juros;

moradia;

saúde;

alimentação;

educação;

transporte;

aposentadoria;

direitos.

MOBILIZE.

Transforme indignação difusa em reivindicação democrática.

Essa mudança altera completamente o tabuleiro.


DE “BOLSONARISMO CONTRA O SISTEMA” PARA “POVO CONTRA PRIVILÉGIOS”

A extrema direita precisa de uma determinada fotografia eleitoral:

BOLSONARISMO × SISTEMA.

Nessa fotografia, consegue apresentar-se como insurgente.

O campo progressista precisa trocar a fotografia:

POVO × PRIVILÉGIOS.

Essa mudança aparentemente simples reorganiza toda a narrativa.

Não estamos defendendo o sistema.

Estamos defendendo democracia suficiente para transformá-lo.

Não queremos instituições fracas.

Queremos instituições fortes justamente porque são transparentes, fiscalizadas e submetidas à lei.

Não queremos um Judiciário subordinado ao Executivo ou ao Congresso.

Queremos um Judiciário independente.

E independência não significa ausência de responsabilidade.


A PERGUNTA QUE DESARMA A PROVOCAÇÃO

Quando alguém perguntar:

“E Alexandre de Moraes?”

A resposta não precisa ser uma defesa de Alexandre de Moraes.

Pode ser:

“Investigue Moraes. Investigue Mendonça. Investigue políticos de esquerda, direita e centro. Investigue banqueiros e empresários. Quem tiver cometido crime deve responder. Agora vamos investigar todos ou escolher apenas aqueles cuja investigação produz vantagem eleitoral?”

A discussão muda.

Porque deixamos de defender uma pessoa e passamos a defender um princípio.

Quando alguém disser:

“Mendonça está enfrentando o sistema.”

A pergunta deve ser:

“Está enfrentando todo o sistema ou apenas determinados personagens?”

Outra vez, a obrigação de explicar muda de lado.


UM MÊS PARA MUDAR A AGENDA

O campo progressista não deveria passar o próximo mês falando sobre André Mendonça.

Seria cair novamente na armadilha.

A crise exige uma posição rápida e inequívoca:

investigação para todos; devido processo; transparência; nenhuma proteção corporativa.

Estabelecida essa posição, a campanha precisa retornar à sociedade.

A questão fundamental é devolver a eleição aos problemas concretos da população.

É discutir trabalho.

É discutir salário.

É discutir jornada.

É discutir custo de vida.

É discutir alimentação.

É discutir saúde.

É discutir moradia.

É discutir educação.

É discutir juros.

É discutir oportunidades.

É discutir quanto tempo sobra para uma pessoa viver depois de trabalhar para sobreviver.

Uma pergunta resume parte dessa discussão:

quanto tempo da própria vida o trabalhador brasileiro possui?

Essa pergunta conecta economia, família, saúde mental, mobilidade, cuidado, produtividade e qualidade de vida.

É a política entrando novamente dentro da casa das pessoas.


A DISPUTA VERDADEIRA

Talvez a maior oportunidade dessa crise seja permitir que o campo progressista faça uma autocrítica necessária.

Durante determinado período, setores progressistas aproximaram excessivamente a defesa da democracia da defesa das instituições tal como elas existem.

São coisas diferentes.

Democracia não significa conservar intactas todas as estruturas existentes.

Democracia significa permitir que a sociedade as transforme sem destruir direitos, liberdades e garantias fundamentais.

Por isso podemos defender simultaneamente:

o STF contra tentativas autoritárias de submetê-lo e o direito democrático de cobrar transparência, responsabilidade e igualdade perante a lei do próprio STF.

Não existe contradição nisso.

Existe democracia.


O ANTÍDOTO

O verdadeiro veneno não é simplesmente André Mendonça.

Seria fácil demais.

O perigo maior é permitir que uma disputa entre integrantes das estruturas superiores do poder brasileiro seja apresentada ao país como se fosse uma revolta popular contra as elites.

Não é.

A verdadeira disputa contra privilégios acontece quando perguntamos:

Quem paga impostos e quem consegue escapar deles?

Quem espera meses por atendimento e quem consegue acesso privilegiado aos centros de poder?

Quem paga juros e quem controla o sistema financeiro?

Quem trabalha seis dias para descansar um?

Quem depende integralmente dos serviços públicos?

Quem consegue influenciar as decisões tomadas dentro do Estado?

Quem paga a conta das decisões econômicas?

E quem possui poder suficiente para influenciar essas decisões?

É nessa fronteira que existe uma enorme maioria social esperando representação.


NENHUM PODER ACIMA DA DEMOCRACIA

A esquerda não precisa escolher entre proteger instituições e destruí-las.

Existe uma terceira possibilidade, muito mais transformadora:

DEMOCRATIZÁ-LAS.

Investigue-se tudo.

Proteja-se ninguém.

Garanta-se o devido processo.

Exija-se transparência.

Responsabilize-se quem tiver cometido ilegalidades.

E depois façamos a pergunta que realmente incomoda as estruturas de poder:

que mudanças impediriam que relações privilegiadas entre dinheiro e Estado continuassem acontecendo?

Porque não se derrota uma falsa rebeldia defendendo o status quo.

Derrota-se a falsa rebeldia construindo uma transformação democrática verdadeira.

NINGUÉM ACIMA DA LEI.

NENHUM PODER ACIMA DA DEMOCRACIA.

NENHUM INTERESSE ECONÔMICO ACIMA DO INTERESSE PÚBLICO.

E NENHUMA INSTITUIÇÃO ACIMA DO POVO.

É assim que se sai da cilada.

Não defendendo personagens.

Defendendo princípios — e devolvendo o povo ao centro da política.


Richard Widmarck Matheus Tinoco
Jornalista – DRT 18.335
Coordenador do Coletivo Paulo Faria
Diretor Executivo da WIDTECH                                                                                                                                               Colunista  da Rede Cidadania Digital

FONTE/CRÉDITOS: Richard Widmarck Matheus Tinoco

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