Nunca vou esquecer que durante as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 os produtores de arroz tiveram a pachorra de esconder a sua produção, para influenciar na especulação dos preços do arroz. Graças a Deus, estávamos sob o 3º governo Lula e o arroz foi importado para equilibrar os preços na balança comercial. Desse ano em diante, a minha noção do real significa sobre “oferta e demanda de mercado” também conhecida como “especulação de mercado”, ficou muito bem definida em: picaretagem mercadológica.
Vamos estabelecer aqui, antes de mais nada, um limite bem claro entre, o produtor rural de médio ou pequeno porte, como aquele que põe SIM comida na mesa dos brasileiros. E o produtor de COMMODITY agrícola, como o exportador. Não se sinta incluído em produtor de commodity se a sua agricultura é do tipo familiar, pequena ou médio porte. Na verdade, apesar dos grandes barões da agropecuária brasileira tentarem fazer parecer o contrário, através das amarras invisíveis de identidade cultural, a identidade trabalhista dos pequenos e médios produtores, está mais próxima economicamente a de trabalhadores comuns, do que dos grandes produtores agropecuários.
Já os grandes produtores, são aristocratas e herdeiros de terras passadas de geração em geração, desde que foram tomadas a força dos povos originários durante a colonização. E a bancada Agro é o produto político da perpetuação dessa aristocracia, uma das principais responsáveis pela continuidade do mensalão, que virou emenda de relator, que virou orçamento secreto e que por fim desvia verbas públicas bilionárias nas menores e mais inauditáveis prefeituras possível.
Essa é uma diferença importante de se estabelecer, porque o pequeno e o médio produtor podem até buscar espaço na política, por terem mais contato com o consumidor final brasileiro e por sentirem mais o impacto da variação de preços na balança comercial. Mas na confusão de identidade cultural, tem muito peão de roça sendo convencido que a ID cultural deles é a mesma que a do dono de terra latifundiário. NÃO É. O erro é pensar que estão no mesmo nicho econômico que o produtor de commodity, quando na verdade, os pequenos produtores são apenas peças votantes no tabuleiro político da bancada agro. Em outras palavras, mesmo os pequenos produtores são em geral vítimas dessa imensa manipulação.
O produtor de commodity está no meio político para usar verba pública para fazer lobby. E em seu merchandising, eles são muito carentes de incentivos públicos para comprar seu maquinário. Mas na divulgação de resultados, batem no peito e afirmam que o agro é pop. Incentivos públicos, melhoramentos de sementes, pesquisa científica nas universidades federais, Embrapa, dívidas e mais dívidas perdoadas pela União, o imenso peso do financiamento do agro nas costas do trabalhador, tudo isso facilmente desconsiderado pelo agro pop, na hora de se afirmarem independentes e vigorosos. E fica o questionamento: com tanto incentivo público para produzir, a indústria agropecuária brasileira, deveria realmente ser chamada de empresa privada?
Na matéria do último dia 13/09/2026 "O agro não é mais pop? Calote de R$ 48 bi gera crise inédita no setor” - Amanda Rossi, do UOL, expõe o que pode ser a pior crise do agro brasileiro. E o que isso significa para o restante de nós, que não somos produtores de commodities, nem exportadores?
Significa que, no período eleitoral, a chantagem vem junto com a campanha. Pois, o grande produtor tem mais motivos que nunca para manter uma grande bancada agro, no nosso legislativo. Afinal, de que outra forma poderiam manobrar as políticas econômicas do país, para conseguir o perdão para essa dívida bilionária?
Imagine por um momento a crise histérica em que estariam os bancos, se fossem os trabalhadores comuns com uma inadimplência de mais de 2.000% adquirida nos últimos 5 anos.
O agro existe a milênios e sempre usou de discursos populista para benefícios próprios. Sabe o que também existe a milênios? A FOME. E o agro jamais foi responsável por extingui-la. A única coisa, que eu já li ser capaz de extinguir a fome, foi um bom programa de governo (ênfase para o Bolsa Família), mas nunca vi incentivos agropecuários solucionarem grandes questões populares.
Portanto, que vocês não se esqueçam na hora de votar esse ano que, a bancada ruralista tem até a coragem de jogar fora o alimento que foi produzido, se o lucro não corresponder suas expectativas. O que realmente garante a rota da comida até a mesa de todos, não é apenas o trabalho agropecuário, mas governantes com uma forte ideologia política e preocupação com pessoas em primeiro lugar.
Por: Isabela Marques Naziazeno, bióloga analista de gestão de qualidade e ativista política;
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