Há filmes de terror em que o Mal aparece diante de nós.
Tem rosto, corpo, endereço.
E há outros, muito mais perturbadores, em que o Mal não precisa aparecer porque já encontrou aquilo de que necessita para sobreviver: instituições fragilizadas, ressentimentos acumulados, desinformação, medo, desigualdade, dinheiro e pessoas dispostas a transformar tudo isso em poder.
É dessa segunda espécie de Mal que O Mal que Nos Habita, de Demián Rugna, pode nos ajudar a pensar o Brasil atual.
No filme, o Mal não chega simplesmente para castigar os pecados humanos. Ele espreita. Espera. Procura brechas. Contamina. Multiplica-se.
É uma ameaça viral.
E justamente aí nasce uma poderosa metáfora para o Brasil de 2026.
O MAL NÃO PRECISA TOMAR O ESTADO. PRECISA CONTAMINÁ-LO.
O fascismo contemporâneo raramente chega anunciando:
“Somos fascistas.”
Ele aprende a vestir outras roupas.
Pode apresentar-se como indignação.
Como antipolítica.
Como moralismo.
Como defesa da liberdade.
Como cruzada contra inimigos imaginários.
Como guerra contra as instituições — enquanto simultaneamente procura ocupá-las.
E pode até apresentar-se como defesa da democracia enquanto trabalha diariamente para corroer os fundamentos que tornam possível uma democracia plural.
O fenômeno é viral porque não depende apenas de partidos.
Depende da contaminação do ambiente político.
Primeiro espalha-se a desconfiança.
Depois transforma adversários em inimigos.
Em seguida transforma diferenças políticas em ameaças existenciais.
Finalmente oferece uma solução:
um líder, uma família, uma verdade e um inimigo.
É nesse ambiente que a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro precisa ser compreendida politicamente.
Não simplesmente como candidatura individual.
Mas como tentativa de transformar novamente o bolsonarismo em projeto de poder nacional.
Em setembro de 2026, Flávio Bolsonaro já aparece como um dos principais adversários de Lula nas pesquisas presidenciais, inclusive em cenários competitivos de segundo turno.
Portanto, o fenômeno deixou de ser hipótese distante.
Existe uma possibilidade eleitoral concreta.
FLÁVIO E SEUS DIVERSO$ IRMÃO$
Aqui está talvez uma das características mais importantes desse fenômeno.
Quando falamos em “irmão$”, não estamos falando apenas de parentesco biológico.
Falamos metaforicamente das irmandades de interesse que podem surgir quando política, dinheiro, influência, comunicação e poder institucional passam a compartilhar conveniências.
Os diverso$ irmão$ podem estar espalhados pela sociedade.
Podem aparecer na política.
Podem circular pelo mercado financeiro.
Podem ocupar espaços de influência econômica.
Podem frequentar escritórios poderosos.
Podem buscar proximidade com autoridades.
Podem disputar narrativas sobre decisões do STF.
Podem aproximar interesses privados das Instituições Ilibada$.
Isso não significa afirmar que instituições inteiras sejam criminosas ou que todos os seus integrantes façam parte de alguma conspiração.
Significa fazer uma pergunta democrática muito mais séria:
QUEM VIGIA AS RELAÇÕES ENTRE DINHEIRO E PODER?
Porque democracias não morrem somente quando tanques ocupam as ruas.
Também podem adoecer quando relações entre poder econômico, poder político e poder institucional tornam-se opacas demais para o controle da sociedade.
E exatamente por isso instituições democráticas precisam de transparência, fiscalização, imprensa livre e controle público.
AS INSTITUIÇÕES ILIBADA$
O cifrão aqui não acusa.
O cifrão pergunta.
Pergunta o que acontece quando interesses econômicos atravessam espaços que deveriam estar protegidos pelo interesse público.
Pergunta onde termina a relação profissional legítima e onde começa o conflito de interesses.
Pergunta quem financia quem.
Quem representa quem.
Quem aconselha quem.
Quem influencia quem.
Quem tem acesso a quem.
Porque nenhuma democracia deveria depender exclusivamente da reputação de suas instituições.
Instituições democráticas precisam ser transparentes justamente para continuarem sendo respeitadas.
Isso vale para o Congresso.
Vale para governos.
Vale para partidos.
Vale para bancos.
Vale para empresas.
Vale para o Ministério Público.
E vale também para o STF.
Nenhuma instituição republicana deveria reivindicar imunidade à crítica democrática.
AS “TORCIDAS ORGANIZADAS ILEGAI$”
Mas existe ainda outro componente da epidemia política contemporânea.
As “Torcidas organizadas ilegai$”.
Não necessariamente organizações formalmente ilegais, mas redes políticas e digitais que funcionam segundo a lógica das torcidas:
meu lado nunca erra; o outro lado nunca acerta.
Nesse ambiente, desaparece o cidadão.
Surge o torcedor.
Ele não examina evidências.
Defende seu time.
Não procura compreender.
Procura destruir o adversário.
Não pergunta se determinada informação é verdadeira.
Pergunta:
“Isso ajuda o meu lado?”
A viralização política começa justamente aí.
Algoritmos transformam indignação em engajamento.
Engajamento transforma-se em audiência.
Audiência transforma-se em dinheiro.
Dinheiro transforma-se em influência.
Influência transforma-se em poder.
E poder procura novamente produzir indignação.
Forma-se então um circuito:
MEDO → RAIVA → ENGAJAMENTO → DINHEIRO → INFLUÊNCIA → PODER → MAIS MEDO.
Essa é uma das máquinas políticas mais poderosas do nosso tempo.
O FASCISMO COMO CONTÁGIO
A grande contribuição da metáfora de O Mal que Nos Habita está justamente aqui.
O Mal não conquista as pessoas imediatamente.
Ele encontra condições favoráveis para sua reprodução.
O extremismo político também.
Ele cresce onde existe abandono.
Onde existe desigualdade.
Onde existe insegurança.
Onde existe ressentimento.
Onde cidadãos perderam confiança nas instituições.
Onde a política deixou de conversar com a vida cotidiana.
É por isso que combater o extremismo apenas dizendo que ele é extremista pode ser insuficiente.
É preciso disputar o terreno onde ele cresce.
CIÊNCIA E CONHECIMENTO
No texto que inspira esta reflexão, Ciência e Conhecimento aparecem como instrumentos capazes de enfrentar aquilo que ameaça destruir a sociedade.
Politicamente, podemos ampliar essa ideia.
Nossa defesa democrática precisa ser:
CIÊNCIA + CONHECIMENTO + TRANSPARÊNCIA + JUSTIÇA SOCIAL + PARTICIPAÇÃO + INFORMAÇÃO VERIFICÁVEL.
Não basta combater fake news.
É necessário reconstruir confiança.
Não basta denunciar autoritarismo.
É necessário mostrar que democracia melhora concretamente a vida.
Não basta defender instituições.
É necessário exigir que elas sejam permanentemente dignas dessa defesa.
Não basta derrotar eleitoralmente o extremismo.
É preciso diminuir as condições sociais que permitem sua reprodução.
O ERRO SERIA PROCURAR APENAS O MONSTRO
Talvez essa seja a advertência mais importante para o campo democrático brasileiro.
O erro seria imaginar que existe apenas um personagem responsável pelo fenômeno.
Bolsonaro não inventou sozinho o bolsonarismo.
Flávio Bolsonaro não explica sozinho sua própria competitividade eleitoral.
O fenômeno é maior que seus personagens.
Existe uma infraestrutura social, econômica, comunicacional e cultural que permite sua reprodução.
Por isso, derrotar um candidato não necessariamente derrota aquilo que produziu sua candidatura.
O desafio democrático brasileiro é muito maior:
INTERROMPER A CADEIA DE TRANSMISSÃO.
A DEMOCRACIA PRECISA CHEGAR ANTES
No filme, quando todos percebem a dimensão da ameaça, talvez já seja tarde demais.
Na política, ainda temos escolha.
Podemos identificar os sinais.
Podemos compreender os mecanismos.
Podemos reconstruir vínculos sociais.
Podemos fiscalizar o dinheiro.
Podemos exigir transparência das Instituições Ilibada$.
Podemos desmontar as máquinas das “Torcidas organizadas ilegai$”.
Podemos mostrar aos diverso$ irmão$ que nenhuma irmandade de interesses pode ser maior que a República.
E podemos compreender definitivamente que democracia não é apenas votar de quatro em quatro anos.
Democracia é construir permanentemente uma sociedade na qual o autoritarismo encontre cada vez menos terreno para germinar.
Porque talvez o verdadeiro Mal que nos espreita não seja apenas Flávio Bolsonaro.
Nem seus diverso$ irmão$.
Nem as Instituições Ilibada$.
Nem as “Torcidas organizadas ilegai$”.
O perigo maior surge quando desigualdade, ressentimento, desinformação, dinheiro e descrença democrática encontram-se no mesmo território histórico.
Nesse momento, aquilo que estava apenas espreitando encontra condições para nascer.
E então a pergunta decisiva para o Brasil de 2026 deixa de ser apenas:
QUEM VENCERÁ A ELEIÇÃO?
A pergunta passa a ser:
QUE TIPO DE SOCIEDADE ESTAMOS CONSTRUINDO PARA QUE DETERMINADAS FORMAS DE PODER POSSAM VOLTAR A NASCER?
Essa é a batalha anterior à urna.
E provavelmente será também a batalha posterior a ela.
Richard Widmarck Matheus Tinoco
Jornalista - DRT 18.335
Coordenador do Coletivo Paulo Faria
Diretor Executivo WIDTECH Colunista da Rede Cidadania Digital
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