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Domingo, 02 de Agosto 2026
Justiça

A memória da Candelária e o dever diário de proteger a vida 

olhar para os 33 anos da Chacina da Candelária é encarar um espelho incômodo  — porém absolutamente necessário — sobre o presente.

Rede Cidadania Digital
Por Rede Cidadania Digital
A memória da Candelária e o dever diário de proteger a vida 
Winnie de Souza Juvenato
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Manhuaçu, 24 de julho de 2026.  
Falar sobre o dia 23 de julho de 1993 não é apenas resgatar uma memória trágica da 
história recente do Brasil. Para quem atua na gestão da Política Pública de Assistência 
Social, olhar para os 33 anos da Chacina da Candelária é encarar um espelho incômodo 
— porém absolutamente necessário — sobre o presente. Naquela noite, a violência 
armada e a extrema negação de direitos interromperam brutalmente a vida de crianças e 
adolescentes que faziam da rua o seu único espaço de sobrevivência. Três décadas se 
passaram, mas as perguntas fundantes daquela tragédia continuam ecoando nas nossas 
cidades: quais vidas continuam vulneráveis nos nossos territórios? De que forma o Estado 
consegue chegar até elas antes que a violência se consuma? 
Quando aqueles jovens foram assassinados nas escadarias da igreja, o Sistema Único de 
Assistência Social (SUAS) sequer existia. A proteção às populações vulneráveis ainda 
era lida, muitas vezes, pela chave do assistencialismo, do higienismo social ou da 
criminalização da pobreza. A construção e consolidação do SUAS, aliada ao 
fortalecimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), surgiram justamente para 
mudar essa paradigma. Aprendeu-se, a custo de muita dor histórica, que a garantia de 
direitos não é favor nem caridade, mas um dever inegociável do Estado e um direito de 
cada cidadão. 
Estar à frente da coordenação de um Centro de Referência Especializado de Assistência 
Social (CREAS) significa trabalhar diariamente na linha de frente onde a violação de 
direitos já aconteceu ou está prestes a acontecer. Essa posição nos cobra uma reflexão 
permanente. A memória da Candelária nos convoca a olhar para os nossos serviços 
especializados — como a Abordagem Social e o acompanhamento familiar — não como 
meros procedimentos burocráticos, mas como ferramentas vitais de escuta, afeto e resgate 
de dignidade. Trata-se de enxergar crianças, jovens e famílias em situação de rua não 
como problemas de ordem pública, mas como pessoas cujos laços e oportunidades foram 
continuamente rompidos. 
Além disso, é impossível encarar essa data sem reconhecer as marcas do racismo 
estrutural e da desigualdade que atravessam as violações de direitos no Brasil. Os corpos 
vulnerabilizados há trinta e três anos guardam o mesmo perfil de raça e classe das famílias 
que acolhemos hoje nos serviços socioassistenciais. Isso nos mostra que o trabalho do 
CREAS não pode ser isolado. Ele exige uma articulação firme e contínua com todo o 
Sistema de Garantia de Direitos — incluindo a Saúde, a Educação, o Conselho Tutelar e 
o Sistema de Justiça — para construir redes de proteção reais e interromper ciclos 
históricos de violência.

Essa reflexão ganha contornos ainda mais urgentes.  Para o Estado, esse debate não deve ser abstrato feito apenas em períodos de campanha; precisa se materializar no orçamento público, na priorização dos investimentos socioassistenciais e na escolha de projetos de sociedade que protegem as populações vulneráveis. As ações do Estado e de nossos representantes enquanto nação, definem diretamente se os serviços essenciais de proteção social serão fortalecidos ou sucateados.

A memória da Candelária não deve servir apenas ao luto, mas à vigilância constante. Cada 
atendimento realizado, cada vínculo reconstruído e cada projeto fortalecido dentro do 
SUAS é uma tentativa concreta de garantir que a história não se repita. Enquanto houver 
uma criança ou um adolescente desprotegido em nossas ruas, o trabalho da assistência 
social continuará sendo uma trincheira fundamental em defesa da vida e da cidadania. 
Lembrar é preciso, para que nunca mais aconteça.

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Por Winnie de Souza Juvenato - Assistente Social, Bacharel em Direito e Ativista Negra no Leste de Minas Gerais.

FONTE/CRÉDITOS: Winnie de Souza Juvenato

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