Manhuaçu, 24 de julho de 2026.
Falar sobre o dia 23 de julho de 1993 não é apenas resgatar uma memória trágica da
história recente do Brasil. Para quem atua na gestão da Política Pública de Assistência
Social, olhar para os 33 anos da Chacina da Candelária é encarar um espelho incômodo
— porém absolutamente necessário — sobre o presente. Naquela noite, a violência
armada e a extrema negação de direitos interromperam brutalmente a vida de crianças e
adolescentes que faziam da rua o seu único espaço de sobrevivência. Três décadas se
passaram, mas as perguntas fundantes daquela tragédia continuam ecoando nas nossas
cidades: quais vidas continuam vulneráveis nos nossos territórios? De que forma o Estado
consegue chegar até elas antes que a violência se consuma?
Quando aqueles jovens foram assassinados nas escadarias da igreja, o Sistema Único de
Assistência Social (SUAS) sequer existia. A proteção às populações vulneráveis ainda
era lida, muitas vezes, pela chave do assistencialismo, do higienismo social ou da
criminalização da pobreza. A construção e consolidação do SUAS, aliada ao
fortalecimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), surgiram justamente para
mudar essa paradigma. Aprendeu-se, a custo de muita dor histórica, que a garantia de
direitos não é favor nem caridade, mas um dever inegociável do Estado e um direito de
cada cidadão.
Estar à frente da coordenação de um Centro de Referência Especializado de Assistência
Social (CREAS) significa trabalhar diariamente na linha de frente onde a violação de
direitos já aconteceu ou está prestes a acontecer. Essa posição nos cobra uma reflexão
permanente. A memória da Candelária nos convoca a olhar para os nossos serviços
especializados — como a Abordagem Social e o acompanhamento familiar — não como
meros procedimentos burocráticos, mas como ferramentas vitais de escuta, afeto e resgate
de dignidade. Trata-se de enxergar crianças, jovens e famílias em situação de rua não
como problemas de ordem pública, mas como pessoas cujos laços e oportunidades foram
continuamente rompidos.
Além disso, é impossível encarar essa data sem reconhecer as marcas do racismo
estrutural e da desigualdade que atravessam as violações de direitos no Brasil. Os corpos
vulnerabilizados há trinta e três anos guardam o mesmo perfil de raça e classe das famílias
que acolhemos hoje nos serviços socioassistenciais. Isso nos mostra que o trabalho do
CREAS não pode ser isolado. Ele exige uma articulação firme e contínua com todo o
Sistema de Garantia de Direitos — incluindo a Saúde, a Educação, o Conselho Tutelar e
o Sistema de Justiça — para construir redes de proteção reais e interromper ciclos
históricos de violência.
Essa reflexão ganha contornos ainda mais urgentes. Para o Estado, esse debate não deve ser abstrato feito apenas em períodos de campanha; precisa se materializar no orçamento público, na priorização dos investimentos socioassistenciais e na escolha de projetos de sociedade que protegem as populações vulneráveis. As ações do Estado e de nossos representantes enquanto nação, definem diretamente se os serviços essenciais de proteção social serão fortalecidos ou sucateados.
A memória da Candelária não deve servir apenas ao luto, mas à vigilância constante. Cada
atendimento realizado, cada vínculo reconstruído e cada projeto fortalecido dentro do
SUAS é uma tentativa concreta de garantir que a história não se repita. Enquanto houver
uma criança ou um adolescente desprotegido em nossas ruas, o trabalho da assistência
social continuará sendo uma trincheira fundamental em defesa da vida e da cidadania.
Lembrar é preciso, para que nunca mais aconteça.
Por Winnie de Souza Juvenato - Assistente Social, Bacharel em Direito e Ativista Negra no Leste de Minas Gerais.
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