Costumamos atribuir esse sentimento à baixa autoestima ou à insegurança individual. Mas talvez
essa explicação seja insuficiente.
A comparação não é um fenômeno novo. Nós nos constituímos na relação com o outro.
É olhando para o mundo que construímos referências sobre quem somos, o que
desejamos e onde acreditamos pertencer. A questão é que, na era das plataformas
digitais, essa comparação deixou de acontecer entre pessoas que compartilham a
mesma realidade e passou a ser mediada por algoritmos que selecionam, organizam e
repetem aquilo que mais prende nossa atenção.
Não estamos apenas observando a vida do outro. Estamos observando aquilo que as
plataformas entenderam que deveríamos desejar.
Quando milhares de publicações valorizam determinados corpos, estilos de vida,
profissões, padrões de consumo e formas de sucesso, elas não apenas refletem a
cultura: elas também a produzem. Aos poucos, começamos a acreditar que existe uma
única maneira legítima de viver bem. A felicidade passa a ser associada ao
desempenho, à produtividade e à visibilidade, enquanto a vulnerabilidade, o descanso
e as imperfeições parecem não ter espaço.
Nesse contexto, o sofrimento deixa de ser apenas uma questão individual e passa a
ser também um fenômeno social. A sensação de insuficiência não nasce
exclusivamente da fragilidade emocional de alguém, mas de uma lógica que transforma
a vida em vitrine e o reconhecimento em métrica. Curtidas, visualizações e
compartilhamentos passam a funcionar como indicadores de valor, ainda que sejam
incapazes de medir quem somos.
A comparação, então, deixa de ser um movimento espontâneo e torna-se quase
permanente. Não porque escolhemos comparar, mas porque somos constantemente
convidados a fazê-lo. Cada atualização do feed apresenta novos parâmetros sobre
beleza, sucesso, maternidade, relacionamentos, consumo e felicidade. Sem perceber,
passamos a avaliar a nossa própria existência a partir dessas referências.
Esse processo merece ser problematizado porque individualiza sofrimentos que têm
raízes coletivas. Quando alguém sente que nunca é suficiente, a resposta costuma ser
“fortaleça sua autoestima”, “pare de se comparar” ou “faça terapia”. Embora o cuidado
psicológico seja fundamental, ele não pode nos impedir de perguntar: que tipo de
sociedade estamos construindo quando normalizamos uma cultura baseada na
comparação permanente? Que interesses são sustentados quando acreditamos que
sempre nos falta alguma coisa para sermos felizes?
Falar sobre cidadania digital também é reconhecer que a tecnologia não é neutra. As
plataformas são desenhadas para disputar nossa atenção e transformar emoções em
engajamento. Quanto mais tempo permanecemos conectados, maior o lucro gerado
por esse modelo de negócios. Nesse cenário, sentimentos como ansiedade, medo de
ficar para trás e necessidade constante de aprovação deixam de ser apenas
experiências individuais e passam a alimentar uma engrenagem econômica.
Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja “por que me comparo tanto?”,
mas “quem se beneficia quando passamos a acreditar que nunca somos suficientes?”.
Desenvolver cidadania digital exige mais do que aprender a utilizar tecnologias. Exige
compreender como elas influenciam nossa forma de pensar, sentir e nos relacionar. Em
tempos em que o algoritmo disputa nossa atenção e, muitas vezes, nossa percepção
sobre quem somos, cultivar pensamento crítico é também um exercício de liberdade.
Afinal, preservar a saúde mental não depende apenas das escolhas individuais, mas
também da nossa capacidade de questionar os modelos de sociedade que estamos
ajudando a construir.
Eduarda Rocha Psicóloga | Colunista da Rede Cidadania Digital
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