Talvez essa seja uma das frases mais repetidas quando falamos sobre prevenção ao suicídio.
E ela é importante.
Mas será que é suficiente?
Quando alguém está em sofrimento, dizer para procurar ajuda pode parecer simples. Mas, na
prática, nem sempre é.
Que ajuda? Onde ela está? Quanto custa? Quanto tempo é preciso esperar? É possível
chegar até ela?
Nem todo mundo consegue pagar por psicoterapia. Nem todo mundo consegue faltar ao
trabalho para procurar atendimento. Nem todo mundo vive perto de um serviço de saúde
mental. Nem todo mundo possui uma rede de apoio disponível.
E, quando falamos sobre prevenção ao suicídio, essas perguntas também precisam fazer parte
da conversa.
Porque o sofrimento não acontece separado da vida.
Ele pode estar atravessado pelo desemprego, pela fome, pela violência, pelo racismo, pela
sobrecarga, pela solidão, pela discriminação, pela precarização do trabalho, pela ausência de
direitos e por tantas outras experiências que ultrapassam aquilo que conseguimos explicar
apenas pela dimensão individual.
Isso não significa negar a singularidade de cada pessoa ou reduzir o sofrimento psíquico às
condições sociais.
Significa reconhecer que ninguém vive sozinho no mundo.
Nossas relações, nossos territórios, nossas condições de vida e as possibilidades que temos
de acessar cuidado também participam da forma como existimos e enfrentamos aquilo que nos
atravessa.
Por isso, prevenir o suicídio não pode ser apenas ensinar alguém a pedir ajuda.
Também precisamos construir condições para que essa ajuda exista, seja acessível e chegue a
quem precisa.
Precisamos de serviços públicos fortalecidos, de políticas de saúde mental, de redes de
cuidado, de espaços de convivência, de proteção social e de uma sociedade capaz de
reconhecer o sofrimento antes que ele precise se transformar em uma urgência.
Talvez a pergunta não seja somente:
“O que essa pessoa precisa fazer para ficar bem?”
Mas também:
“O que precisa mudar ao redor dela para que seja possível viver melhor?”
Falar sobre prevenção é falar sobre cuidado.
Mas falar sobre cuidado também é falar sobre acesso, direitos e condições de vida.
Porque não basta dizer “procure ajuda”.
Precisamos construir uma sociedade onde pedir ajuda seja realmente uma possibilidade.
Eduarda Rocha
Psicóloga — CRP 04/85147
Colunista — Rede Cidadania Digital
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