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Sexta-feira, 02 de Outubro 2026
Política

A política e a atuação do assessoramento personalizado: entre a essência humana e o pragmatismo estratégico

Um assessoramento político que não surge apenas no calor dos períodos eleitorais se torna primordial para a consolidação de um trabalho bem-sucedido e de longo prazo.

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Por Rede Cidadania Digital
A política e a atuação do assessoramento personalizado: entre a essência humana e o pragmatismo estratégico
Arquivo Lizandra Oliveira
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                                                                                                                                         Por Lizandra Oliveira

 (Psicóloga pelo CEULP/Ulbra, tecnóloga em Gestão Pública e especialista em assessoramento político estratégico com foco em comunicação não verbal e humanização de mandatos).

Somos pessoas singulares, marcadas por individualidades, bagagens culturais, maneiras próprias de ser e vivências em realidades comunitárias distintas. É partindo dessa premissa que pensar em um assessoramento político que não surge apenas no calor dos períodos eleitorais se torna primordial para a consolidação de um trabalho bem-sucedido e de longo prazo. Contudo, para compreender a profundidade desse papel, é preciso primeiro definir o que é, em essência, um assessor político: trata-se do profissional encarregado de mediar a relação entre o agente público, a máquina institucional e a sociedade, atuando como guardião da coerência estratégica, da reputação e da narrativa do mandato.

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Historicamente, a atuação desse profissional esteve atrelada a funções que hoje podem ser consideradas arcaicas e burocráticas. Por muito tempo, a figura do assessor se reduzia a um filtro antipático — aquele que exercia exclusivamente o papel de dizer o "não" que o político não queria ou não sabia como expressar —, ou funcionava apenas como um operador mecânico de campanhas pautadas em fórmulas prontas de marketing importadas sem contexto. Esse modelo tradicional enxergava o eleitorado como massa de manobra e o mandato como um produto estático.

Em contrapartida, a nova forma de fazer política exige um assessoramento profundamente personalizado e humanizado. A sociedade contemporânea anseia por representações autênticas, o que torna imperativo que o trabalho do assessor seja adaptado para alinhar a identidade do candidato às demandas reais do seu público-alvo. Como aponta Mota (2020), a personalização da estratégia e a escuta ativa do eleitorado são pilares fundamentais para construir vínculos genuínos na comunicação pública, distanciando-se de abordagens padronizadas. Conhecer o território e a dinâmica da região faz com que a assessoria seja fidedigna à realidade das ruas, mapeando com precisão os pontos fortes que devem ser evidenciados e as fragilidades que exigem menor exposição.

Para sustentar essa relação de proximidade sem cair nas armadilhas da superficialidade, a interseção com a ciência psicológica se faz indispensável. Sob a ótica da Psicologia Humanista, inspirada na Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers (1961), a relação de assessoramento exige empatia profunda, aceitação positiva incondicional e congruência. Mais do que gerenciar agendas, o assessor humanizado possui a sensibilidade de perceber — muitas vezes apenas no olhar — quando o candidato necessita de suporte diante do esgotamento e da alta pressão inerentes à vida pública. Essa conexão segura só floresce com o desenvolvimento contínuo da confiança mútua.

Essa dimensão de cuidado encontra eco direto na Logoterapia de Viktor Frankl (1985), cuja premissa central é a busca pelo sentido da existência humana. No contexto da política e da assessoria, o mandato e a atuação pública correm o constante risco de se esvaziarem em meio ao tecnicismo eleitoral e à busca desenfreada por poder, gerando crises existenciais e desgaste nos líderes. O assessor, sob uma ótica logoterapêutica, atua como um facilitador de sentido, ajudando o agente político a resgatar o propósito maior de sua missão social: servir à comunidade e transformar realidades. Isso evita que a política se reduza a um espetáculo vazio e devolve a dignidade e a ética ao centro da ação pública.

O equilíbrio delicado: ética profissional e a demarcação clara entre assessoria e psicoterapia clínica

Apesar da relevância vital do acolhimento humano, a literatura de gestão estratégica e marketing político impõe um contraponto pragmático indispensável. Autores como Marcelo Vitorino (2024) alertam que o assessoramento não deve transformar-se em uma sessão de terapia contínua a ponto de negligenciar a tese política. O eleitor vota primariamente em propostas concretas, entregas e soluções para os problemas coletivos. Quando o assessoramento perde de vista o planejamento programático, cria-se uma redoma de vidro que afasta o líder das cobranças reais da sociedade.

 A grande questão que se impõe na prática é: como exercer uma atuação humanizada sem incorrer nesse risco apontado por Vitorino e, ao mesmo tempo, preservar o rigor ético da prática psicológica?

Para quem atua na interface entre a psicologia e a assessoria, o respeito às diretrizes do Código de Ética Profissional é inegociável. Nesse sentido, é fundamental demarcar uma fronteira intransponível: o assessor com sensibilidade psicológica não substitui um psicoterapeuta clínico. Tratam-se de profissionais e papéis totalmente diferentes e complementares, mas que nunca devem ser fundidos. O papel do assessor não é realizar diagnósticos, terapias aprofundadas ou análises de conflitos internos da personalidade do político — práticas que pertencem exclusivamente ao setting terapêutico sigiloso do consultório.

Na assessoria estratégica, a sensibilidade psicológica é aplicada estritamente para oferecer organização mental, clareza de papéis e resgate de propósito. Para que a humanização fortaleça o mandato em vez de esvaziá-lo, a atuação pauta-se em diretrizes claras:

Foco no Propósito (Logoterapia Aplicada): Em vez de centralizar as conversas nas angústias pessoais ou no sofrimento psíquico do candidato, o assessor utiliza a escuta humanizada para redirecionar o olhar do político para o sentido da sua entrega pública e para a pauta coletiva.

 Respeito aos Limites Éticos do Papel: O espaço de escuta na assessoria é funcional e voltado para a estratégia institucional. Questões emocionais profundas que recaiam sobre o campo clínico são identificadas com responsabilidade ética e prontamente encaminhadas para acompanhamento psicoterápico especializado fora do ambiente político, garantindo que o assessor e o psicoterapeuta clínico atuem em esferas absolutamente distintas e respeitosas.

 Validação da Realidade e Combate à "Redoma": Um assessor humanizado e ético não blinda o candidato da realidade das ruas; pelo contrário, ele utiliza a empatia para preparar o líder psicologicamente para enfrentar as cobranças da sociedade, transformando a pressão externa em resiliência executiva e foco nas entregas.

 Alinhamento Inseparável entre Pessoa e Tese: A personalização saudável conecta a essência do indivíduo a um projeto coletivo sólido. O candidato transparece autenticidade, mas sua vitrine para o eleitor continua sendo o plano de trabalho e a coerência de suas pautas, garantindo que o combustível emocional do político sirva à execução de propostas concretas.

Por fim, ao olharmos para além da figura do candidato, percebemos que o assessor também funciona como um ponto imediato de identificação perante a opinião pública. Suas atribuições modernas são amplas e dinâmicas: 

Retornar prontamente às demandas trazidas pela base e pela sociedade, validando o diálogo. 

Manter ou criar laços de convivência genuínos e duradouros com aliados e comunidades. 

 Suprir ausências pontuais do candidato quando este precisa se afastar por motivos de foro pessoal, preservando sua integridade.

 Atuar como o elo estratégico e seguro entre o político e a equipe, assegurando que o planejamento macro da gestão ou da campanha siga rigorosamente o cronograma estabelecido.

Diante desse cenário, percebe-se que a atuação do assessor transcende o modelo burocrático e exige grande critério e sensibilidade na escolha desse profissional. Como reforça Margarida Kunsch (2014) ao tratar do planejamento estratégico na comunicação integrada, gerir a reputação e a credibilidade de uma liderança exige profissionais altamente qualificados, capazes de articular a precisão técnica institucional sem jamais perder de vista a dimensão humana e o sentido social que sustentam a verdadeira liderança.

Referências

DUARTE, Jorge. Assessoria de imprensa e comunicação: alicerces para a construção da visibilidade institucional. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2018.

FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 1985.

KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Planejamento de relações públicas na comunicação integrada. 5. ed. São Paulo: Summus, 2014.

MOTA, Fernando. Marketing político e eleitoral: estratégias para campanhas modernas. Lisboa: Edições Sílabo, 2020.

 ROGERS, Carl Ransom. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.

VITORINO, Marcelo. O que é marketing político e como funciona na prática. Artigos e Ensaios de Estratégia Eleitoral, 2024. Disponível em: https://marcelovitorino.com.br/sobre-marketing-politico/. Acesso em: 23 ago. 2026.

FONTE/CRÉDITOS: Lizandra Oliveira

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