Todos os anos, durante o mês de setembro, o amarelo ocupa empresas, escolas, instituições, redes sociais e espaços públicos. Surgem campanhas, palestras, rodas de conversa e mensagens que nos lembram da importância de falar sobre saúde mental e prevenção do suicídio. E falar sobre isso é, de fato, importante. Mas talvez também seja necessário fazer uma pergunta que nem sempre aparece quando pensamos nas ações de Setembro Amarelo: o que acontece quando falamos sobre o sofrimento das pessoas sem olhar para as condições em que elas estão vivendo?
Pense, por exemplo, em uma empresa que promove uma palestra sobre saúde mental e incentiva seus funcionários a praticarem autocuidado. É uma iniciativa importante? Pode ser. Mas o que acontece se, ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas trabalham em jornadas exaustivas, convivem com metas excessivas, insegurança, baixos salários ou relações marcadas por assédio? De que adianta dizer “cuide da sua saúde mental” se as próprias condições de trabalho continuam produzindo sofrimento?
O mesmo questionamento pode ser levado para outros espaços. Uma escola pode falar sobre a importância de pedir ajuda, mas existe espaço para acolher esse pedido quando ele acontece? Uma universidade pode realizar uma campanha de prevenção ao suicídio, mas como seus estudantes são recebidos quando chegam em sofrimento? Uma instituição pode falar sobre a importância de cuidar de si, mas quais condições concretas ela oferece para que esse cuidado seja possível?
É nesse ponto que precisamos ter cuidado para não transformar uma questão social em uma responsabilidade exclusivamente individual. Quando dizemos para alguém descansar, fazer terapia, praticar atividade física, pedir ajuda ou cuidar de si, estamos falando de possibilidades que podem ser importantes. Mas também precisamos perguntar se essa pessoa tem tempo para descansar, dinheiro ou acesso para buscar atendimento, segurança financeira, uma rede de apoio ou mesmo um ambiente minimamente seguro para existir.
O sofrimento não acontece separado da vida. As pessoas sofrem dentro de relações, famílias, escolas, universidades, comunidades e ambientes de trabalho. Por isso, se queremos realmente falar sobre saúde mental, talvez seja necessário olhar também para esses contextos e para as condições que atravessam a experiência de cada pessoa.
Isso não significa que campanhas de Setembro Amarelo sejam desnecessárias ou que falar sobre prevenção seja prejudicial. A questão é outra: o que fazemos depois que a campanha termina?
Talvez uma empresa possa começar setembro com uma palestra, mas também possa aproveitar esse momento para ouvir seus trabalhadores e se perguntar sobre as condições que está oferecendo. Talvez uma escola possa falar sobre saúde mental e, ao mesmo tempo, olhar para suas relações, para situações de violência e para a forma como acolhe quem pede ajuda. Talvez uma instituição possa ir além de uma publicação nas redes sociais e construir espaços permanentes de escuta e cuidado.
Porque, quando falamos que a vida importa, precisamos também nos perguntar sobre as condições em que essa vida está sendo vivida.
Não basta lembrar, uma vez por ano, que as pessoas precisam cuidar da própria saúde mental. Também precisamos olhar para os espaços que construímos e para aquilo que estamos oferecendo a quem vive neles.
Setembro pode ser amarelo. Mas o cuidado não pode existir apenas em setembro.
E talvez a pergunta mais importante seja justamente essa: o que estamos fazendo, concretamente, para que as pessoas tenham condições mais dignas de viver?
Eduarda Rocha, psicóloga, CRP-04/85147 Colunista da Rede Cidadania Digital
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