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Domingo, 04 de Outubro 2026
Geral

Quando foi que controlar virou demonstração de amor?

Ele só tem ciúmes porque gosta de mim.

Rede Cidadania Digital
Por Rede Cidadania Digital
Quando foi que controlar virou demonstração de amor?
Eduarda Rocha
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Ele só tem ciúmes porque gosta de mim.
Ele quer saber onde estou porque se preocupa.
Ele não gosta que eu use essa roupa.
Ele só pediu para eu me afastar daquela amiga porque sabe que ela não é boa para mim.
Ele quer minha senha porque não temos segredos.
Às vezes, a violência não chega anunciando que é violência.
Ela pode chegar disfarçada de cuidado.
De preocupação.
De amor.
De ciúme.
E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil reconhecê-la.
Depois de aprender, desde cedo, que meninas devem cuidar, compreender, ceder, acolher e
preservar as relações, não é difícil que algumas mulheres também aprendam a interpretar
determinadas atitudes de controle como algo que precisam compreender, tolerar ou até
agradecer.
Ele é assim porque tem medo de me perder.
Eu sei que ele exagera, mas é porque me ama.
E, pouco a pouco, aquilo que parecia cuidado pode começar a ocupar todos os espaços da
vida.
Ele quer saber com quem ela está.
Depois, onde está.

Depois, por que demorou para responder.
Questiona a roupa.
As amizades.
O trabalho.
A família.
O jeito de falar.
O jeito de se comportar.
Até que, em algum momento, ela já não está mais escolhendo livremente.
Está escolhendo para evitar uma reação.
E existe uma diferença importante entre cuidado e controle.
𝗖𝘂𝗶𝗱𝗮𝗿 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗶𝗱𝗲𝗿𝗮 𝗮 𝗮𝘂𝘁𝗼𝗻𝗼𝗺𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝗼𝘂𝘁𝗿𝗼.
𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗮𝗿 𝘁𝗲𝗻𝘁𝗮 𝗿𝗲𝗱𝘂𝘇𝗶-𝗹𝗮.

𝗖𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗲𝗿𝗴𝘂𝗻𝘁𝗮.
𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗲 𝗲𝘅𝗶𝗴𝗲.
𝗖𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗼 𝗿𝗲𝘀𝗽𝗲𝗶𝘁𝗮 𝗹𝗶𝗺𝗶𝘁𝗲𝘀.
𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗲 𝗰𝗿𝗶𝗮 𝗹𝗶𝗺𝗶𝘁𝗲𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼 𝗼𝘂𝘁𝗿𝗼.
Cuidado pode existir mesmo quando há liberdade.
𝗖𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗲 𝗽𝗿𝗲𝗰𝗶𝘀𝗮 𝗱𝗮 𝘃𝗶𝗴𝗶𝗹𝗮̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗲𝘅𝗶𝘀𝘁𝗶𝗿.
E talvez uma das perguntas mais importantes seja:
𝗤𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝘃𝗼𝗰𝗲̂𝗱𝗲𝗶𝘅𝗼𝘂 𝗱𝗲 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗮𝗹𝗴𝗼 𝗽𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗾𝘂𝗲𝗿𝗶𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗼𝘂 𝗽𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗺𝗲𝗱𝗼 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲
𝗮𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲𝗰𝗲𝗿𝗶𝗮 𝘀𝗲 𝗳𝗶𝘇𝗲𝘀𝘀𝗲?
Essa diferença pode parecer pequena, mas diz muito sobre uma relação.
Porque violência psicológica nem sempre começa com uma ameaça explícita.
Às vezes, começa com pequenas concessões.
Uma roupa que deixa de usar.
Uma amizade que se perde.

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Um lugar que deixa de frequentar.
Uma opinião que deixa de expressar.
Uma senha que entrega.
Uma localização que passa a compartilhar o tempo inteiro.
Uma decisão que deixa de tomar sozinha.
E, quando percebe, a mulher já está vivendo uma vida cada vez menor para que o
relacionamento continue existindo.
Por isso, falar sobre violência contra a mulher também é falar sobre aquilo que aprendemos a
chamar de amor.
𝗔𝗺𝗼𝗿 𝗻𝗮̃𝗼 𝗱𝗲𝘃𝗲𝗿𝗶𝗮 𝗲𝘅𝗶𝗴𝗶𝗿 𝘃𝗶𝗴𝗶𝗹𝗮̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲.
Não deveria precisar controlar para permanecer.
Não deveria diminuir a liberdade de alguém para garantir a segurança de outra pessoa.
Não deveria fazer uma mulher ter medo de desagradar.
E talvez o enfrentamento da violência também passe por reaprender algumas coisas.
𝗥𝗲𝗮𝗽𝗿𝗲𝗻𝗱𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗰𝗶𝘂́𝗺𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́𝗽𝗿𝗼𝘃𝗮 𝗱𝗲 𝗮𝗺𝗼𝗿.
𝗤𝘂𝗲 𝗽𝗼𝘀𝘀𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́𝗽𝗿𝗼𝘁𝗲𝗰̧𝗮̃𝗼.
𝗤𝘂𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́𝗰𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗼.
𝗤𝘂𝗲 𝗮𝗯𝗿𝗶𝗿 𝗺𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝘀𝗶 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́𝘀𝗶𝗻𝗼̂𝗻𝗶𝗺𝗼 𝗱𝗲 𝗮𝗺𝗮𝗿 𝗮𝗹𝗴𝘂𝗲́𝗺.

E que uma relação saudável não deveria exigir que uma pessoa desapareça aos poucos para
que a outra se sinta segura.
Talvez a pergunta não seja apenas:
𝗘𝗹𝗲 𝗺𝗲 𝗮𝗺𝗮?
Mas também:
𝗘𝘂 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗶𝗴𝗼 𝘀𝗲𝗿 𝗲𝘂 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗮 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗲𝘀𝘀𝗮 𝗿𝗲𝗹𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼?
Porque onde existe amor, deve existir espaço para existir.
Para escolher.
Para discordar.
Para ter amigos.
Para ter desejos.
Para dizer não.

Para continuar sendo quem se é.
E quando uma relação começa a exigir o contrário, talvez seja hora de olhar para aquilo que
estamos chamando de amor e perguntar:
𝗜𝘀𝘀𝗼 𝗲́𝗰𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗼 𝗼𝘂 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗲?
Eduarda Rocha
Colunista Rede Cidadania Digital

FONTE/CRÉDITOS: Eduarda Rocha

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