Uma menina ganha uma boneca.
Depois, uma vassourinha.
Uma panelinha.
Uma cozinha de brinquedo.
Ela aprende a ninar, alimentar, limpar, organizar. Aprende a cuidar da casa, dos filhos, dos outros.
Enquanto isso, muitas vezes, o menino ganha um carrinho. Uma bola. Um jogo. Uma espada. É
incentivado a explorar, competir, construir, ocupar espaço.
Nenhum desses brinquedos, sozinho, é um problema.
O problema começa quando, por trás da brincadeira, existe uma mensagem silenciosa sobre aquilo que
se espera de cada um.
Para algumas meninas, desde cedo, cuidar parece ser quase um destino.
Elas aprendem a perceber se alguém está triste. A ajudar antes que peçam. A organizar. A lembrar. A
acolher. A abrir mão. A serem “boazinhas”.
Para muitos meninos, a aprendizagem pode ser outra: não chorar, não demonstrar medo, não pedir
ajuda, não depender de ninguém. Ser forte. Ser independente. Ser aquele que resolve.
E assim, antes mesmo de compreenderem o que é uma relação, muitas crianças já estão aprendendo os
papéis que deverão ocupar dentro delas.
A menina aprende a cuidar.
O menino aprende a ser cuidado.
A menina aprende a ceder.
O menino aprende a ocupar.
A menina é elogiada por ser comportada.
O menino, por ser corajoso.
Essas pequenas diferenças, repetidas todos os dias, não ficam para trás quando a infância termina. Elas
podem acompanhar meninas e meninos para a adolescência, para os relacionamentos, para o trabalho,
para a vida adulta.
E talvez seja por isso que falar sobre igualdade de gênero também seja falar sobre infância.
Não se trata de proibir meninas de brincarem de boneca ou meninos de jogarem futebol. Não precisamos
criar uma infância sem diferenças, mas uma infância em que as possibilidades não sejam determinadas
pelo gênero.
Meninas também precisam aprender a ocupar espaços, dizer não, pedir ajuda, negociar, decidir e cuidar
de si.
Meninos também precisam aprender a cuidar, cozinhar, limpar, acolher, dividir responsabilidades e falar
sobre o que sentem.
Porque uma criança que aprende que cuidar da casa é responsabilidade de todos pode se tornar um
adulto que entende que uma relação também é construída por responsabilidades compartilhadas.
E uma menina que aprende, desde cedo, que não nasceu para servir, agradar ou carregar tudo sozinha
pode crescer sabendo que amor não deveria exigir o abandono de si mesma.
Talvez o enfrentamento da violência contra a mulher também comece muito antes de uma relação
violenta existir.
Comece quando uma menina descobre que sua voz importa.
Quando um menino descobre que cuidar não diminui ninguém.
Quando uma criança aprende que respeito não depende de ser homem ou mulher.
Quando entendemos que educar para a igualdade também é uma forma de prevenção.
Neste Agosto Lilás, talvez uma das perguntas que precisemos fazer seja simples:
O que estamos ensinando às nossas crianças sobre ser menina e ser menino?
Porque aquilo que parece apenas uma brincadeira pode, pouco a pouco, ensinar uma vida inteira de
expectativas.
E toda vez que questionamos um papel que parecia natural, abrimos espaço para que uma nova história
possa ser construída.
Eduarda Rocha
Colunista Rede Cidadania Digital
FONTE/CRÉDITOS: Eduarda Rocha
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