Por Redação Rede Cidadania Digital
Há algo diferente nas ruas durante as eleições.
Não é apenas uma mudança de estética. Não é somente a troca de uma bandeira por um wind banner, de uma caminhada por uma peça publicitária ou de um grupo de militantes por uma fileira de placas.
É uma mudança na própria maneira de fazer política.
As ruas, que durante décadas foram um dos principais palcos da disputa eleitoral, parecem cada vez menos ocupadas por pessoas e cada vez mais tomadas por estruturas de comunicação.
Onde antes havia militantes, cabos eleitorais, voluntários e candidatos caminhando pelos bairros, apertando mãos e pedindo votos, agora aparecem grandes peças publicitárias cuidadosamente posicionadas para capturar o olhar de quem passa.
A campanha ficou mais profissional. Mas ficou mais democrática?
Essa é uma pergunta que merece ser feita.
A política virou publicidade?
O fenômeno é visível.
Basta observar determinadas avenidas, cruzamentos e pontos de grande circulação para perceber a transformação. Wind banners, placas, faixas e outras estruturas passam a funcionar como representantes silenciosos dos candidatos.
Eles estão presentes.
Mas não conversam.
Não ouvem.
Não respondem.
Não enfrentam perguntas.
Não precisam explicar uma proposta diante de um eleitor que discorda.
A placa não precisa convencer. Ela precisa ser vista.
E essa diferença é fundamental.
A eleição, entretanto, não deveria ser apenas uma disputa pela atenção. Deveria ser também uma disputa de ideias.
Quando a imagem passa a ocupar o espaço que antes era ocupado por pessoas, o eleitor pode até receber mais mensagens publicitárias, mas isso não significa necessariamente que esteja tendo mais contato com a política.
O dinheiro público no meio da discussão
É aqui que surge uma questão ainda mais delicada.
As campanhas eleitorais brasileiras contam com financiamento público justamente porque se reconheceu que depender exclusivamente de grandes doadores privados poderia aumentar a influência econômica sobre a política.
A lógica é aparentemente simples: se parte dos recursos vem do dinheiro público, candidatos e partidos teriam melhores condições para disputar eleições sem depender exclusivamente do poder econômico privado.
Mas existe uma pergunta que não pode ser ignorada:
dinheiro público significa, automaticamente, igualdade de condições?
Não necessariamente.
Porque dinheiro é apenas uma parte da equação.
Existe capacidade de organização. Existem partidos mais estruturados. Existem equipes profissionais. Existem redes políticas construídas ao longo dos anos. Existem fornecedores, comunicação, marketing, produção gráfica e capacidade de ocupar fisicamente os espaços de maior visibilidade.
E existe, principalmente, a capacidade de transformar recursos financeiros em exposição eleitoral.
É aí que a promessa de igualdade pode encontrar uma realidade bem mais complexa.
Quanto custa ocupar uma rua?
Uma pergunta simples pode ajudar a entender o problema:
quanto custa transformar uma avenida em uma vitrine eleitoral?
Quantos banners são necessários?
Quantas placas?
Quantos pontos estratégicos?
Quantas pessoas para instalar, retirar e reposicionar essas estruturas?
Quanto custa a produção?
Quanto custa o transporte?
Quanto custa a logística?
Quanto custa uma campanha capaz de fazer com que um candidato pareça estar em todos os lugares ao mesmo tempo?
Essas perguntas não significam, por si só, que exista irregularidade.
Mas são perguntas legítimas para uma sociedade que utiliza recursos públicos para financiar campanhas.
Porque, se o dinheiro é público, a discussão sobre sua utilização também deveria ser pública.
Não basta perguntar quanto cada campanha recebeu.
É preciso perguntar:
o que foi feito com esse dinheiro, qual foi o custo da visibilidade e quem consegue transformar recursos em presença eleitoral?
O desaparecimento do militante
Existe ainda uma dimensão que não aparece nas planilhas de prestação de contas.
A dimensão humana.
Durante muito tempo, uma campanha dependia de gente.
Gente disposta a caminhar.
Gente que conhecia o bairro.
Gente que apresentava o candidato.
Gente que conversava com o vizinho.
Gente que defendia uma proposta.
Gente que pedia voto.
Esse trabalho tinha valor político porque colocava a eleição em contato direto com a vida cotidiana.
Hoje, parte dessa função foi absorvida pela comunicação profissional.
Em vez de uma pessoa explicando quem é o candidato, temos uma fotografia.
Em vez de uma conversa, temos um slogan.
Em vez de uma caminhada, temos uma fileira de banners.
Em vez de alguém ouvindo uma reclamação, temos uma mensagem impressa.
É mais eficiente? Talvez.
É mais barato? Nem sempre.
É mais democrático? Essa é a pergunta que permanece sem resposta.
O eleitor virou audiência?
A transformação também muda o papel do eleitor.
No modelo tradicional de campanha, o cidadão era interlocutor.
Ele podia parar o candidato, fazer uma pergunta, reclamar de um serviço público ou apresentar uma demanda.
Na campanha cada vez mais visual e digital, o cidadão corre o risco de se transformar em audiência.
Ele recebe.
Ele vê.
Ele rola a tela.
Ele passa diante da placa.
Mas participa menos da conversa.
E existe uma diferença enorme entre ser alcançado por uma propaganda e ser ouvido por um candidato.
Uma democracia madura precisa das duas coisas: comunicação e diálogo.
O problema começa quando uma substitui completamente a outra.
A desigualdade que permanece
O financiamento público nasceu com uma promessa importante: reduzir a influência desproporcional do dinheiro privado sobre as eleições.
Mas a experiência das campanhas mostra que igualdade formal não significa necessariamente igualdade real.
Todos podem estar submetidos às mesmas regras.
Todos podem receber recursos públicos segundo os critérios estabelecidos.
Mas nem todos possuem a mesma estrutura para transformar esses recursos em visibilidade.
É possível ter dinheiro e estrutura.
É possível ter dinheiro e uma máquina de comunicação.
É possível ter dinheiro e presença territorial.
E é possível ter apenas algumas pessoas dispostas a ajudar.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas se o sistema distribui recursos.
A pergunta deveria ser se ele consegue impedir que a capacidade de gastar e organizar comunicação continue determinando quem aparece mais para o eleitor.
A rua está cheia, mas a política está vazia?
Há uma ironia nessa nova paisagem eleitoral.
As ruas podem estar visualmente lotadas.
Mas politicamente mais vazias.
Uma avenida tomada por dezenas de wind banners pode transmitir uma sensação de presença política intensa.
Mas basta observar de perto para perceber que, muitas vezes, não existe ninguém ali.
São estruturas.
São imagens.
São mensagens.
São números.
É uma campanha que parece estar em toda parte sem necessariamente estabelecer uma conversa com ninguém.
Talvez nunca tenhamos tido tantas formas de mostrar um candidato. Mas isso não significa que estejamos vendo mais democracia.
Não se trata de ser contra o progresso
É importante deixar claro: a questão não é defender o retorno obrigatório às antigas campanhas.
As redes sociais são legítimas.
O marketing político faz parte da realidade contemporânea.
A comunicação visual também.
O problema está em aceitar sem reflexão que a tecnologia e o dinheiro substituam aquilo que nenhuma ferramenta consegue reproduzir completamente: o contato humano.
Uma eleição não pode ser apenas uma operação de marketing.
Candidato não é produto de supermercado.
Ele está pedindo autorização para administrar dinheiro público, tomar decisões que afetam a vida das pessoas e representar uma comunidade.
Por isso, deveria estar disposto a conversar com essas mesmas pessoas.
A pergunta que fica
Talvez seja hora de olhar para as campanhas eleitorais não apenas como grandes operações de comunicação, mas como um dos principais instrumentos de participação democrática.
Se existe financiamento público, a sociedade tem o direito de perguntar se esse dinheiro está ajudando a aproximar candidatos e eleitores ou se está apenas financiando uma disputa cada vez mais sofisticada pela ocupação dos espaços de visibilidade.
Se a resposta for a segunda, há um paradoxo que precisa ser enfrentado:
um sistema criado para diminuir desigualdades pode acabar reproduzindo desigualdades por outros caminhos.
E talvez a imagem mais simbólica dessa transformação esteja justamente nas ruas.
De um lado, a placa.
Do outro, a pessoa.
A placa não cansa.
Não precisa caminhar.
Não precisa conversar.
Não precisa responder.
A pessoa, sim.
Mas é a pessoa que faz política.
É a pessoa que convence.
É a pessoa que questiona.
É a pessoa que ouve.
É a pessoa que pede voto.
E é a pessoa que, depois da eleição, também pode cobrar o candidato.
Por isso, talvez a questão central não seja quantos wind banners uma campanha consegue espalhar pelas ruas.
A questão é outra:
quantas pessoas essa campanha conseguiu encontrar, ouvir e convencer?
Porque uma democracia pode ter campanhas modernas, profissionais e visualmente impecáveis.
Mas, se as pessoas desaparecerem das ruas, talvez seja preciso perguntar se não estamos modernizando a propaganda enquanto empobrecemos o diálogo.
Mais placas não significam necessariamente mais democracia.
Mais dinheiro não significa necessariamente mais igualdade.
E uma rua cheia de imagens não substitui uma praça cheia de cidadãos.
No fim, a eleição continua sendo uma escolha feita por pessoas.
E talvez seja justamente isso que não deveríamos deixar desaparecer.
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