Por José Luiz Quadros de Magalhães*
Ao trabalharmos os alicerces da racionalidade moderna, ou seja, a forma como o sujeito
moderno foi treinado a pensar, estudamos fundamentos desta razão como a
uniformização; o falso universalismo europeu; o individualismo e a separação do
“homem” da natureza; a natureza transformada em recurso para este mesmo “homem”
branco moderno; uma história linear onde as civilizações estariam em graus distintos de
evolução e, ainda, uma lógica reducionista binária e de subalternização do considerado
diferente (nós x eles).
Juntamente com Enrique Dussel, podemos dizer que a modernidade, o sistema mundo
colonial moderno, começa a ser construída a partir da data simbólica de 1492. Neste ano,
começa a invasão da “América” (este nome já retrata a invasão); a expulsão dos
considerados diferentes (muçulmanos e judeus) da Península Ibérica e foi estabelecida a
primeira gramática normativa (quando o nascente Estado espanhol passa a determinar a
forma correta de falar e o significado das palavras). Este projeto de violência de
uniformização e subalternização dos não brancos e não homens, criou e impôs uma forma
de pensar, compreender, interpretar o mundo que ainda está fortemente dentro de nós.
Nos conflitos e construções teóricas da contemporaneidade (ainda moderna), um desses
binarismos tem sido explorado e repetido a exaustão: esquerda x direita. Podemos mesmo
dizer que, antes do recente crescimento da chamada extrema-direita no mundo, e sua
chegada ao poder nos EUA (Trump); Polônia; Hungria; Itália; Brasil (o governo de
Bolsonaro); Argentina (Milei), ainda tínhamos uma discussão mais cuidadosa em relação
aos Partidos Políticos e suas ideologias. Falávamos em socialistas; comunistas; socialdemocratas;
socialistas-democráticos; anarquistas de esquerda (que não aceitam partidos
políticos); sociais-liberais, socialismo cristão; sociais-cristãos, isto só no grande campo
da esquerda. Hoje tudo isto virou esquerdismo que se contrapõe ao direitismo.
Esta simplificação é positiva? Quem diz o que é esquerda e o que é direita? Uma pergunta
que sempre proponho aos meus alunos de Teoria do Estado é a seguinte: quem diz o que
é direito? Quem diz o que é normal? Quem diz o que é pecado? Ora, quem tem poder
pra dizer. O Direito é construído no parlamento (em uma democracia burguesa) e pelos que
financiam as campanhas eleitorais. Direito é política.
Para responder às perguntas, sobre o que é esquerda, o que significa ser esquerda, acredito
que o caminho mais seguro seja estudar a história desses movimentos. Quem deve dizer
o que é esquerda são as pessoas que fizeram e fazem sua história coletiva. É uma resposta
coletiva, que passa pelos movimentos sociais, sindicais, revolucionários, pela
interpretação dos fatos históricos, pela história do pensamento, teorias, enfim, uma
resposta que nós temos que encontrar compreendendo as ações na história, discutindo,
estudando e agindo.
Uma outra questão que precisa ser discutida é se é útil este binarismo simplificador que
divide a sociedade em torno de nomeações genéricas, levando as pessoas a transformarem
o jogo politico em um jogo de futebol entre Cruzeiro e Atlético. Hora, se eu escolhi um
clube vou acompanha-lo para o resto da vida (com raras exceções) e não interessa
argumentos contrários, técnicos ruins, jogadores sem compromisso, estratégias e táticas
erradas, continuarei com meu clube. Esta condenação a um “nome coletivo” impede que
as pessoas enxerguem, muitas vezes, o óbvio, como por exemplo: pessoas pobres votando
em milionários e bilionários; um indígena ou negro votando em um supremacista branco;
uma mulher votando em um machista, misógino e assim por diante. Ora, essas pessoas
escolheram um time e vão continuar torcendo por ele pois, não foi uma escolha racional,
discutida, mas emocional e alguns de nós, de “esquerda”, incentivamos isto ao
rebaixá-los a simples ignorantes, “burros”, etc, etc.
É realmente um bom caminho insistirmos neste binarismo? E, talvez pior, é um bom
caminho estabelecermos padrões do que é ser um bom esquerdista? Uma cartilha da boa
esquerda. Como devem se comportar as pessoas de esquerda? Quem vai dizer o que
significa ser de esquerda hoje?
Não podemos virar negacionistas de nossa história da esquerda, para nos tornarmos
melhores temos que reconhecer todo o machismo e racismo, intrínseco à lógica moderna,
e o binarismo esquerda e direita é moderno, colonial e europeu. São fartos os eventos.
Por vezes, a simplicidade de proposições, como o binarismo “nós versus eles”, pode gerar
consequências complexas, uniformizações, padronizações e impossibilidades. A tarefa
não pode ser, simplesmente, vencer as pessoas de direita, mas, ajuda-las no processo de
transformação em pessoas sensíveis, curiosas, críticas, inseridas no mundo como agentes
de transformação em favor da vida de todes e de cada pessoa, logo, incapazes de seguir
proposições políticas, sociais e econômicas de exclusão, opressão e violência. Não
podemos reforçar a paixão pela camisa do time, seja ele qual for, mas incentivar a
compreensão de que a vida não é fragmentada, que tudo se relaciona com tudo, e logo,
toda vida depende de toda a vida. É fundamental superar a racionalidade moderna binária,
branca e masculina, de uma vez por todas. Outras razões, plurais, diversas, de respeito à
vida de forma integral e relacional, devem se impor sobre a razão moderna, capitalista,
individualista, egoísta e competitiva.
*Professor UFMG e PUC Minas e Presidente da Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz de BH